Construindo rivalidades: o mundo pós-guerra (I)

10 fev

Guerra Fria

A Guerra Fria foi um conflito que não resultou em confronto armado, foi uma disputa ideológica entre Estados Unidos e União Soviética, que transcorreu a partir do fim da Segunda Guerra Mundial (1945) e findou em 1991, com o fim da União Soviética. Esse conflito pode ser definido como uma guerra econômica, diplomática e tecnológica que tinha como objetivo a expansão das áreas de influências do capitalismo e do socialismo.

O principal ponto da Guerra Fria foi a difusão dos sistemas político-econômicos existentes, de um lado o capitalismo, liderado pelos Estados Unidos; e do outro, o socialismo, liderado pela União Soviética. É importante lembrar que os dois eram as duas maiores potências mundiais que constituíam o mundo bipolar.

Após a Segunda Guerra Mundial, a União Soviética aplicou grande esforço para a expansão do socialismo no Leste Europeu, além de países do continente africano e asiático. Tal iniciativa repercutiu como uma ameaça para seu rival, os Estados Unidos.

A principal preocupação de ambos estava relacionada à questão da predominância de uma das influências, que poderia significar a hegemonia de uma potência sobre a outra, esse temor elevou ainda mais a rivalidade entre eles. Assim, americanos e soviéticos saíram em busca de aliados para expandir suas respectivas ideologias.

O clima de apreensão fez com que as potências em questão saíssem em disparada para o desenvolvimento de inovações bélicas, produzindo um gigantesco arsenal bélico, como armas, mísseis, submarinos e armamentos nucleares capazes de destruir o planeta.

Durante a Guerra Fria o mundo conviveu com um constante clima de tensão entre americanos e soviéticos, uma vez que qualquer situação envolvendo os dois países poderia gerar um conflito armado sem precedentes.

 

Nova Ordem Mundial

“A ordem internacional da Guerra Fria refletiu-se em um modelo teórico e didático de apreensão do espaço mundial. Esse modelo fundado na subdivisão do globo nos “três mundos” dos livros de geografia apoiava-se em realidades que entraram em colapso.

A nova ordem mundial implica a revisão dos conceitos tradicionais que, por décadas, serviram para explicar a organização geopolítica e geoeconômica do espaço mundial.

O deslocamento da natureza do poder dos arsenais nucleares e convencionais para a eficácia, produtividade e influência das economias constituiu um dos mais notáveis fenômenos que acompanharam a dissolução da ordem da Guerra Fria.

 A multipolaridade do poder global substituiu a rígida geometria bipolar do mundo do pós-guerra. A internacionalização dos fluxos de capitais e a integração dos fluxos de capitais e a integração das economias nacionais atingiram um patamar inédito. Como conseqüência, os pólos de poder da nova ordem mundial apresentam contornos supranacionais. Delineiam-se megablocos econômicos organizados em torno das grandes potências do fim do século.

  • Na América do Norte, constitui-se a Nafta, polarizada pelos Estados Unidos.
  • Na Europa, a Alemanha unificada funciona com eixo de ligação entre o leste e o oeste do continente.
  • No Pacífico, o Japão centraliza uma vasta área de influência.

A dissolução do Segundo Mundo expressa na transição para a economia de mercado na antiga União Soviética e Europa oriental suscita questões cujas respostas somente aparecerão nos próximos anos.
A geometria do poder europeu depende ainda do desenvolvimento das relações econômicas e políticas entre a Alemanha unificada e a Rússia pós-comunista. Essas relações podem conduzir ao deslocamento do eixo de poder europeu para o segmento da reta Berlim-Moscou, que se tornaria o sucessor do velho triângulo Londres-Paris-Bonn.
As reformas econômicas chinesas apoiadas sobre o alicerce do poder monolítico comunista – representam uma reorganização radical do espaço do leste asiático. Os crescentes investimentos dos chineses de Formosa, dos coreanos do sul e dos japoneses no território continental da China assinalam a integração de Pequim à esfera econômica polarizada por Tóquio. Os indícios de retomada das relações políticas e diplomáticas entre Japão e China abrem a possibilidade da emergência de um poderoso bloco supranacional asiático.

 O Terceiro Mundo funcionou, por muito tempo, como um conceito crucial na reflexão e na prática didática da geografia. Ele representou uma tentativa de cartografar a pobreza, definindo seus contornos em escala global. A nova ordem mundial assinala a fragmentação do Terceiro Mundo em espaços periféricos, que tendem a se integrar marginalmente aos megablocos econômicos.

  • Os “Dragões Asiáticos” e os países pobres da Ásia meridional funcionam como áreas de transbordamento dos capitais japoneses.
  • A Europa do leste e do sul, bem como a África do norte, associa-se ao núcleo próspero da Europa centro-ocidental.
  • A América Latina entrelaça seu destino ao da América do Norte.

A nova ordem mundial ergueu-se sobre uma revolução tecnocientífica que reorganiza o alocamento dos capitais no espaço geográfico. A crise das velhas regiões urbanas e industriais desenvolve-se paralelamente à emergência de eixos de crescimento econômico apoiado em novas tecnologias industriais, nas finanças e nos serviços. Nesse movimento, a pobreza dissemina-se por toda a superfície do globo, avançando sobre as fronteiras do Primeiro Mundo e instalando-se no coração dos Estados Unidos e da Europa ocidental. No mundo todo, microespaços de prosperidade convivem com cinturões envolventes de pobreza e desemprego. Vastas regiões da África Subsaariana, América Latina e Ásia meridional conhecem as tragédias associadas à miséria absoluta. A nova ordem mundial não é mais estável ou segura que a ordem da Guerra Fria. Se o espectro da catástrofe nuclear parece ter sido afastado, novos demônios tomaram-lhe o lugar. A emergência dos nacionalismos e da hostilidade étnica, o ressurgimento do racismo e da xenofobia e a multiplicação dos conflitos localizados evidenciam a componente de instabilidade introduzida pela decadência das velhas super-potências. O século vindouro não promete um mundo melhor para se viver que o século que se encerra”.

O Muro de Berlim

 

Durante 28 anos, de 1961 a 1989, a população de Berlim, ex-capital do Reich alemão, com mais de três milhões de pessoas, padeceu uma experiência ímpar na história moderna: viu a cidade ser dividida por um imenso muro. Situação de verdadeira esquizofrenia geopolítica que cortou-a em duas partes, cada uma delas governada por regimes politicos ideologicamente inimigos. Abominação provocada pela guerra fria, a grosseira parede foi durante aqueles anos todos o símbolo da rivalidade entre Leste e Oeste, e, também, um atestado do fracasso do socialismo real em manter-se como um sistema atraente para a maioria da população alemã.

 

 

O equilíbrio do terror / corrida armamentista

 

O termo “corrida armamentista” foi amplamente utilizado no período histórico que conhecemos como Guerra Fria. Este confronto pela supremacia política e ideológica envolvendo as duas superpotências à época, Estados Unidos e União Soviética, ficou marcado pela ausência de uma luta aberta que fizesse uso de armas ou violência.

Isto não quer dizer que os armamentos estiveram em segundo plano. Ao contrário, a Guerra Fria incentivou como nunca a pesquisa, e o desenvolvimento de armas. Quase ao mesmo tempo em que um dos dois países lançava um novo armamento, seu adversário logo respondia à altura. Tal prática de constante atualização do arsenal das superpotências assumiu proporções absurdas com o tempo, dando origem a material bélico de uma capacidade de destruição muito maior a qual o planeta Terra poderia suportar. Essa constante “atualização” ficaria conhecida como corrida armamentista.

É considerado como ponto inicial desta competição o lançamento pelos americanos, em 1945, das duas bombas atômicas em solo japonês. Quatro anos depois, em 1949, foi a vez da União Soviética anunciar a conquista da tecnologia nuclear. O poder de destruição constatado pelo terrível armamento desencadeou o pesadelo da chamada “hecatombe nuclear”, que passou a assombrar a vida dos habitantes do globo. Acreditava-se que o ataque de um dos lados, num momento qualquer, desencadearia uma guerra que poria fim à vida humana na Terra. Surigiria assim um jogo político-diplomático macabro conhecido como “o equilíbrio do terror”, que se transformou num dos elementos principais do jogo de poder entre EUA e URSS. Os dois buscavam produzir cada vez mais armamentos de destruição em massa, como forma de ameaçar o inimigo.

A corrida armamentista implicava também uma estratégia de dominação, em que as alianças regionais e a instalação de bases militares eram de extrema importância. Os exércitos de ambos os lados possuíam centenas de soldados, armas convencionais, armas mortais, mísseis de todos os tipos, inclusive nucleares que estavam permanentemente apontados para o inimigo, com objetivo de atingir o alvo a partir de longas distâncias.

Esta competição insana duraria décadas, somente terminando de fato com a assinatura dos Tratados de Redução de Armas Estratégicas (Start), na década de 90. Eles prevêem a extinção gradual dos arsenais dos EUA e de países integrantes da ex- URSS que detinham essas armas em seu território (Federação Russa, Ucrânia, Bielorrússia e Cazaquistão). Outro tratado relacionado às armas nucleares, o Tratado para a Proibição Completa dos Testes Nucleares (CTBT), data de 1996. Para entrar em vigor, necessita da ratificação de todos os 44 países com capacidade conhecida de produzir armas nucleares.

 

China Vermelha

            A vitória da revolução comunista em 1949 na China, que não era esperada pelos Estados Unidos, desequilibrou a Guerra Fria, ordem vigente no mundo naquele momento. A revolução resultou da retomada das lutas entre comunistas e nacionalistas chineses após o final da Segunda Guerra Mundial. Tinha também fundamentos históricos, como as relações entre camponeses e grandes proprietários rurais e a luta pela unificação do país contra o invasor estrangeiro.

            Em 1911, representantes de várias províncias derrubaram a monarquia e implantaram a República. Com o regime republicano, surgiu o Partido Nacional do Povo, o Kuomintang. Defendendo o nacionalismo, a democracia e o bem-estar da população, o partido foi organizado por empresários, latifundiários do sul e funcionários do Estado.

            Esses grupos apoiavam o fortalecimento da República e a unificação do país, mas eram contrários aos movimentos camponeses. Fácil perceber a razão: os camponeses e trabalhadores em geral queriam reformas que lhes garantissem acesso à terras e direitos, o que contrariava os desejos dos capitalistas do país. Em 1921, foi fundado o Partido Comunista Chinês (PCC ou PCCh). Os dois grupos, embora rivais, lutaram juntas pela República e contra os grandes proprietários de terras do norte do país.

            Em 1927, entretanto, o comandante militar Chiang Kai-chek assumiu a liderança do Kuomintang e passou a perseguir o PCC. Refugiados nas zonas rurais, os comunistas descobriram um forte movimento camponês e o incorporaram à luta revolucionária, junto com os operários. Um dos dirigentes comunistas, Mao Tsé-tung, passou a atuar diretamente na organização dos camponeses nas regiões centrais e sul da China. Como consequência, o PCC passou a dispor de 30 mil homens armados.

            Para eliminar as bases comunistas, Chiang Kai-chek lançou uma grande ofensiva militar. Mao Tsé-tung liderou, entre 1934 e 1935, a retirada das tropas no episódio conhecido como Grande Marcha. Cerca de 100 mil homens percorreram quase 10 mil quilômetros.

            Em 1931, quando o Japão invadiu a China, a luta pela defesa do país motivou a união dos dois adversários políticos: Kuomintang e PCC. Essa união se estendeu entre 1937 e 1945, durante a Segunda Guerra Mundial.

            Os comunistas, no entanto, alcançaram grande popularidade entre camponeses e operários. Ao final da guerra, em 1945, o PCC dispunha de uma força militar importante e dominava várias regiões da China.

            Contudo, Chiang Kai-chek estava determinado a derrotar os comunistas e, com apoio militar dos Estados Unidos, atacou bases camponesas. O Exército Popular de Libertação, força militar dos comunistas, enfrentou e derrotou as tropas do Kuomintang. Chiang Kai-shek refugiu-se na ilha de Formosa (atualmente Taiwan).

            Em 1º de outubro de 1949, o Partido Comunista tomou o poder e proclamou a República Popular da China, enquanto a ilha de Formosa passou a abrigar a República da China.

Guerra da Coreia

 

O término da Segunda Guerra Mundial abriu portas para que as práticas de natureza neocolonial perdessem seu vigor. Entre as zonas de exploração imperialista perdidas pelo Japão, a Coréia passou a ser controlada pelo poderio militar e econômico dos norte-americanos e soviéticos. Na medida em que se desenvolvia a Guerra Fria, a presença destas duas nações em território coreano instalou a divisão política desse território.

Na porção setentrional, formou-se a República Democrática da Coréia do Norte, de orientação socialista e influenciada pelos ditames do regime socialista soviético. Na região sul, a orientação capitalista prevaleceu com a formação da República da Coréia do Sul. Divididos por uma linha situada no Paralelo 38º, esses dois países logo entraram em conflito, objetivando restabelecer a hegemonia dos territórios sob o comando de um único governo.

A primeira ação nesse sentido foi tomada pelos norte-coreanos, que inspirados pela vitória da revolução comunista de Mao Tsé-tung, resolveram tentar experiência semelhante em território coreano. Logo depois da primeira ofensiva militar que deu início ao conflito, as principais nações do mundo se reuniram em torno da Organização das Nações Unidas para discutir essa questão. O bloco capitalista, aproveitando a ausência soviética, não reconheceu a legitimidade deste conflito.

Os Estados Unidos, maiores interessados em dar fim ao conflito, enviaram um conjunto de tropas lideradas pelo general MacArthur. O propósito inicial da ofensiva norte-americana era expulsar os norte-coreanos e, logo em seguida, conquistar o restante da Coréia passando pelas fronteiras do território chinês. Inconformados com as pretensões norte-americanas, os chineses resolveram participar do conflito quando, em novembro de 1950, enviou tropas de apoio aos norte-coreanos.

A entrada dos chineses na guerra fez com que os esforços militares norte-americanos fossem intensificados. Ao longo de mais dois anos, o conflito chegou a um equilíbrio de forças que colocava em risco o interesse de ambos os lados. Dessa forma, os Estados Unidos resolveram possibilitar negociações diplomáticas que pudessem dar fim à Guerra da Coréia. Em 1953, a assinatura do Armistício de Pan-munjom encerrou os conflitos e restaurou a linha divisória no Paralelo 38º.

Entretanto, o fim da guerra não significou o fim das tensões entre a Coréia do Norte e o bloco capitalista. Ao longo do século XX, os norte-coreanos aproveitaram das discordâncias entre União Soviética e China para estabelecer um projeto de maior autonomia política. Com a queda do bloco socialista a Coréia do Norte enfrentou graves dificuldades econômicas. Entretanto, desenvolveu políticas eficientes nas áreas de educação e saúde.

Nas últimas décadas, a Coréia do Norte desenvolveu um projeto de tecnologia nuclear com fins militares. Esta atitude preocupa as nações capitalistas e órgãos internacionais, que insistem em obter maiores informações sobre os objetivos da ação norte-coreana. Indiferentes às pressões exercidas, as autoridades daquele país reivindicam os princípios de soberania nacional para negar os pedidos vindos, principalmente, dos EUA. Com isso, há pouco tempo, o presidente George W. Bush resolveu incluir a Coréia do Norte entre os países que integram o chamado “Eixo do Mal”.

 

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